Terça-feira, 25 de Dezembro de 2007

Uma maior visibilidade para a Harmonia Mundi

 

Há muito, demasiado tempo, que os catálogos representados pela famosa distribuidora francesa Harmonia Mundi eram pessimamente trabalhados em Portugal, raramente se conhecendo o que ia saindo  (se é que saía), tão pouco competente era quem desses catálogos se ocupava entre nós.
Agora, felizmente, parece que tudo pode mudar e só essa boa notícia bastaria para que se justificasse esta nota sobre cinco-discos-cinco que, a título de exemplo, mão gentil me fez chegar muito recentemente.
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Dizer que o catálogo da editora suíça HatHut   (e suas várias séries)  é um dos mais importantes no campo do jazz, da música improvisada e da nova música contemporânea é reconhecer uma evidência, tendo em conta o já riquíssimo acervo que pode aqui ser consultado. Dedicando as suas atenções às novas obras de jovens músicos em revelação, mas também aos mais consagrados veteranos, a HatOLOGY vem demonstrando, ano após ano, a indiscutível importância das editoras independentes europeias na própria divulgação do jazz norte-americano.
 
Começando por Anthony Braxton, não é recente esta sua obra discográfica publicada pela HatOLOGY, antes representa  (segundo julgo, porque esta é a primeira vez que a escuto)  mais uma reedição de um célebre concerto realizado em 1979 com o seu quarteto no Festival de Jazz de Willisau (Suíça). Um quarteto constituído, além do mestre  (em vários instrumentos de palheta),  por Ray Anderson  (trombone, trombone alto e outros «pequenos instrumentos»), John Lindberg (contrabaixo)  e Thurman Barker (percussão, xilofone e gongs), formação que durou pouco tempo em comparação com a que Braxton organizou com Marilyn Crispell, Mark Dresser e Gerry Hemingway.
 
O repertório é representativo desta fase da carreira do multi-instrumentista / compositor e, sendo embora apresentado sob a forma de duas obras extensas, ele é constituído por peças de variada duração e grande abstracção conceptual, conjugadas numa organização composicional que, bem ao gosto de Braxton, vai evoluindo  (às vezes justapondo-se)  ao sabor das suas indicações, mas também da democrática tomada de iniciativas dos seus pares. Um disco importante para se avaliar bem o (sempre intrigante)  peso da improvisação no interior da composição. E vice-versa!
 
Ao contrário do disco de Braxton, Afternoon in Paris é uma primeira edição da HatOLOGY e dá-nos a conhecer um saxofonista bem singular, com uma carreira ainda mais insólita. Ele é Anthony Ortega, nascido em Los Angeles, de origem índia-mexicana, próximo do som mais «duro» de outros conhecidos saxofonistas da West Coast como Art Pepper ou Herb Geller e cujo percurso  (se bem que correndo em paralelo ao dos maiores músicos do seu tempo)  se esfumou a certa altura, porque Ortega mergulhou no trabalho de estúdio, praticamente nada se sabendo dele na cena do jazz, excluindo porventura dois discos célebres –  New Dance e Permutations  – gravados em meados dos anos de 1960. 
 
Só a leitura das interessantíssimas notas de Art Lange para a capa deste disco quase justificaria a sua compra. Mas, em termos musicais, a surpresa do encontro com esta voz instrumental de sonoridade ainda tão «jovem»  (considerando que grande parte das peças foram gravadas quando Ortega tinha 74 e 77 anos de idade!)  e dando corpo a improvisações altamente heterodoxas, não é menos desafiante.
 
Com um repertório quase inteiramente constituído por grandes standards do jazz – por onde passam peças sujeitas a um tratamento exigente como Ask Me Now, Blue Monk, Now’s The Time, Afternoon in Paris ou I’ ll Remember April  – o lado insólito deste disco está bem documentado no facto de algumas peças terem sido gravadas em solo absoluto  (frente a uma câmara de vídeo!)  e outras em estúdio, na companhia de Kash Killion  (contrabaixo, violoncelo), ainda com um outro bónus: uma gravação inédita de Ornithology, datada já de 1966  (quando Ortega tinha pouco mais de 30 anos!)  em duo com o contrabaixista Chuck Domanico.
 
Fechando o capítulo HatOLOGY, uma outra reedição deste ano vem retomar o material gravado (também no Festival de Jazz de Willisau de 1979)  pelo saxofonista Oliver Lake, um dos mais conhecidos membros do World Saxophone Quartet, aqui com o seu trio formado ainda por Michael Gregory Jackson  (guitarra eléctrica)  e Pheeroan akLaff  (bateria).
 
Constituindo, em grande parte, uma remissão à matriz do free e marcado a espaços pelas inflexões dos blues, o material temático que percorre este disco representa uma afirmação clara da tradição afro-americana, isto num catálogo por vezes mais próximo da improvisação livre de extracção europeia. Mas peças demasiado longas como aquela que dá o título ao disco –  Zaki  –, manchada pelo pecado de querer falar muito para pouco acabar por dizer, não contribuem para tornar absolutamente indispensável a audição deste álbum.
 
Por último, virando-nos decididamente para a Europa, outros dois CDs distribuídos pela Harmonia Mundi e chegados a Portugal pertencem agora a dois catálogos diferentes: o histórico Le Chant du Monde e o  (para mim)  desconhecido O + Music.
 
Representando o primeiro está o álbum Électrique, pela Orquestra Nacional de Jazz (França) sob a direcção de Franck Tortiller. Como o título indica, Tortiller –  ele próprio um vibrafonista e director da ONJ para um mandato de três anos  (começado em 2005), como é da tradição rotativa da orquestra / cooperativa em termos de direcção  – privilegiou a electrónica nos arranjos que escreveu para a orquestra  (mais precisamente para a formação média de decateto)  mas deu-lhes um cunho de exigência que ultrapassa, em muito, a escrita fácil que abunda neste campo.
 
Fortemente marcado pelo beat binário e pela evocação do jazz-fusão de meados de 1970, bem como de figuras / grupos-chave desse período –  como Miles Davis, os Weather Report, os Headhunters ou a Mahavishnu Orchestra  –, este álbum é com duas únicas excepções  (Sometimes it Snows in April, de Prince, e o remix final de Claude Gomez)  preenchido com obras originais de Franck Tortiller e segue-se a uma primeira experiência na qual o vibrafonista-arranjador já adoptara o rock de Led Zeppelin, estando especialmente indicado para os apreciadores desta corrente.  
 
Já o jazz também familiar mas instrumentalmente mais clássico de Changing Faces é a pedra de toque deste álbum gravado pelo cantor belga David Linx com a brilhantíssima Orquestra de Jazz de Bruxelas, uma das mais reputadas big bands europeias. Pouco conhecido entre nós –  embora tenha participado no Guimarães Jazz de 1998  – Linx é um cantor talentoso, de vocalização «instrumental» e scat ágil, usando um timbre metálico e uma quase-ausência de vibrato que o aproximam de Mark Murphy e, por tabela, de Kurt Elling.
 
São vários os arranjadores convocados pela OJB  (entre os quais os portugueses Carlos Azevedo e Mário Laginha, para obras de sua autoria)  e três as vozes também convidadas por David Linx para lhe fazerem companhia em alguns duetos, como Natalie Dessay, Ivan Lins e Maria João, num repertório em grande parte saído da pena de Linx. Entretanto, um aspecto negativo que aos meus ouvidos ressalta  (e é mal resolvido)  no trabalho de mistura e pós-produção, é por vezes um certo artificialismo resultante do facto de a gravação das vozes não ter sido certamente realizada ao mesmo tempo da orquestra.
 

A título de curiosidade, o vídeo-clip que podem ver abaixo, é o  making of  de Changing Faces, no qual se pode ouvir a introdução (escrita por Carlos Azevedo) para The Land of Joy, seguida do próprio original de David Linx-Diederick Wissels, com arranjo do mesmo Carlos Azevedo.

                          

 


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 16:59
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Goodbye

 

 

 


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 10:56
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Domingo, 23 de Dezembro de 2007

Natal é quando um Homem quiser?!

 

Este vídeo-clip, excerto de um documentário de Dustin Grove integrado numa campanha de solidariedade com o  (até há pouco)  sem-abrigo Ron Cooper, fala-nos deste veterano cantor e pianista de jazz, em tempos muito activo na  (por muitos)  desconhecida e especialíssima cena de Chicago. Rezam as crónicas que o cantor era muito admirado pelo seu original estilo vocal e pela forma inspirada de improvisar em scat.

Um obituário publicado em 3 de Setembro último no Chicago Tribune, dava conta de que Cooper acabara de morrer, no mais completo abandono, aos 62 anos de idade;  e, nele, pediam os seus amigos mais chegados que, em vez de flores, fosse doado dinheiro para custear as despesas com o funeral.

Será que você já tinha ouvido falar em Ron Cooper?  Eu também não.


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 09:45
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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

A força e persuasão de um jazz familiar

 

Dee Dee Bridgewater

Orquestra de Jazz de Matosinhos

Casa da Música (Porto)

Sala Suggia

Sábado, 7 de Dezembro de 2007

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                                                                                                                                                                                                                  Mesmo considerando algumas últimas desilusões já experimentadas em concertos anteriormente realizados em palcos portugueses por Dee Dee Bridgewater –  como os casos infelizes de uma actuação-tipo-variedades na qual Josephine Baker e a canção francesa foram o pano de fundo; ou o acto falhado de um espectáculo dedicado a Kurt Weill  – era, apesar de tudo, com a confiança suscitada pelo conhecimento do trabalho da cantora noutros contextos claramente jazzísticos que assisti à sua nova apresentação entre nós, desta vez na Casa da Música.
 
Acontece que um outro elemento suplementar de curiosidade e expectativa para este concerto era, ainda, a forma como se comportaria a Orquestra de Jazz de Matosinhos, numa performance de carácter bem diferente daquelas que até hoje havia enfrentado, sobretudo tendo em conta a necessária «lata» para corresponder às «investidas» desse autêntico «bicho de palco» que é Dee Dee Bridgewater. Ora, bem vistas e ouvidas as coisas, foi com satisfação que mais uma vez constatei a crescente maturidade e maioridade do nosso jazz, aqui representado pela OJM, agora num género de apresentação não isento de riscos.
                                      Dee Dee Bridgewater em ensaio com a OJM (Casa da Música)
                                                                                                               Fotos: João Nuno Kendall
                   
Diga-se, desde já, que para o tipo de repertório que nos foi dado ouvir, a orquestra já tinha amplamente convencido e dado excelentes provas nos concertos que, em Março deste ano, realizara na Casa da Música e no Teatro Municipal de Almada, ao tocar o exigente repertório de arranjadores e compositores como Bob Brookmeyer e Thad Jones, este mais uma vez invocado no prefácio do concerto (ainda sem Dee Dee em palco), na execução perfeita de Big Deeper (se não me engano), um arranjo de 1966.
 
Mas agora, estes renovados desafios chamavam-se Frank Foster, Slide Hampton ou Cecil Bridgewater –  ou seja, arranjadores de grande peso no jazz clássico-moderno para grande orquestra  – e julgo que a aposta foi ganha, em grande medida graças à personalidade e segurança da orquestra, já demonstrada em situações musicais muito diversificadas.
 
Aliás, foi a própria Dee Dee que se revelou inesperadamente algo insegura em duas situações do concerto: primeiro, ao «esquecer-se» de regressar ao tema, logo na sua peça de abertura – The Lady is a Tramp – mas ultrapassando o «problema» através de um… one more time!; e, mais tarde, ao desviar-se momentaneamente da real tonalidade de Polka Dots and Moonbeams.
                                                                                               
Excluindo estes dois deslizes, profissionalmente resolvidos com o à-vontade que se lhe reconhece, a cantora desenvolveu em várias peças o típico estilo de improvisação em scat, fazendo ainda lembrar a espaços a voz ampla de Sarah Vaughan, uma das suas principais influências; e esteve particularmente em forma, tanto na emoção expressa em Tenderly, na agilidade de Oh Lady be Good ou na intensa negritude de um Georgia on my Mind bem castiço (que nos deu a conhecer um belo e recheado arranjo de Carlos Azevedo) como ainda no encore que escolheu para se despedir, Let the Good Time Roll, um blues com espectacular arranjo de Frank Foster.
 
Para além da coesão evidenciada pela OJM nos movimentados diálogos com a cantora em Undecided, nas variações escritas para os saxofones e trompetes em Oh Lady be Good ou na execução do arranjo de Frank Foster para o seu Shiny Stockings (em particular, pelo tempo demasiado rápido sugerido pela própria cantora), sobressaíram ainda da orquestra os solistas Mário Santos (sax-tenor), José Luís Rego (sax-alto, também eficaz no lead do naipe de saxofones) ou Rogério Ribeiro (trompete, cada vez mais afoito e seguro).
 
E um destaque especial tem de ir, sem dúvida, para o guitarrista Afonso Pais, convidado especial da orquestra, harmonicamente irrepreensível e melodicamente inventivo, por exemplo nos seus solos para Big Deeper, The Lady is a Tramp ou Polka Dots and Moonbeams.
 
Enfim, um concerto que encerrou da melhor maneira esta temporada da OJM.
                           

Declaração de interesses: o escriba de serviço a O Sítio do Jazz é autor dos textos de apresentação que acompanharam os projectos da OJM para 2007.
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:01
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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

Conversa via-email com o músico-fotógrafo Rodrigo Amado

                                                                            Auto-retrato  -  foto de Rodrigo Amado

                                                                                                             

- A primeira pergunta é inevitável: sendo a sua mais visível (e audível) actividade o jazz e a música improvisada, porque razão não escolheu o jazz como objecto da sua primeira exposição (1) de fotografia? É que, para além de vê-lo a assistir a vários concertos – coisa aliás rara em músicos portugueses! – já o tenho visto, nesses concertos, de câmara em punho, a fotografar os músicos em acção nos palcos.
 
Esta exposição corresponde a um de muitos projectos fotográficos que mantenho em paralelo. Claro que um desses projectos está ligado à música e, ao longo dos anos, tenho fotografado frequentemente, não só concertos, como também os músicos nos ambientes mais diversos, fora dos palcos. Uma exposição sobre os músicos e a música não está posta de parte, mas penso que só irei fazê-la quando sentir que tenho material suficiente e consistente para isso. De qualquer forma, em termos puramente fotográficos, interessam-me mais outros conceitos, universos que me permitam uma certa distância do meio musical.
 
- É sua intenção manter a fotografia como é (suponho) actualmente, ou seja como um hobby, ou pretende vir a praticá-la em termos profissionais, se é que se pode ser, verdadeiramente, profissional de fotografia em Portugal?
 
Para mim, um profissional da fotografia é alguém que vive dos trabalhos que realiza, vendendo as suas imagens para jornais, artigos de revistas, álbuns de casamento, etc. Isso é algo que eu nunca gostaria de fazer. Encaro a fotografia como uma arte e, tal como acontece com a minha música, não quero estar dependente da sua venda para continuar a fazê-la. Ao pensar uma exposição, o único critério que me interessa é o artístico. Se depois conseguir vender, melhor. Nesse sentido, penso que poderei ser tão profissional na fotografia como na música. 
                                                                                                                       
 
                                                    Eva in the Water - foto de Rodrigo Amado
                                                                                                                                                                                                                        
- A propósito da escolha do motivo principal desta sua primeira exposição – a presença de familiares ou amigos próximos – o rosto e o corpo das pessoas é um dos seus primordiais interesses quando fotografa?
 
É, sem dúvida. Sinto um fascínio grande pela captação de uma expressão ou movimento que só é visível em fracções de segundo. É todo um universo de emoções humanas só visível através da fotografia. Há algumas expressões da minha mulher Eva, em retratos presentes na exposição, que eu não lhe reconheço do dia-a-dia. Nunca as vi nem vou, provavelmente, ver novamente. São expressões intensas, captadas num milésimo de segundo, que só existem na fotografia.
 
- Dá um idêntico (ou pelo menos aproximado) interesse à foto de paisagens, por exemplo?
 
A fotografia de paisagens é, para mim, uma disciplina difícil e altamente exigente. Com a democratização das técnicas e materiais fotográficos, a quantidade de imagens de paisagens tecnicamente perfeitas é imensa. É uma área que me interessa muito, mas ainda não consegui desenvolver uma linguagem que me permita captar paisagens com personalidade própria, com uma força idêntica à que se sente no local. Alguns (grandes) fotógrafos conseguem fazer isso.
                                                                                                             
 
                                                                               Stones Throw - foto de Rodrigo Amado
 
- E às cenas ou às ocorrências do dia a dia? Disse-me que pensa em breve fazer uma exposição sobre Nova Iorque, uma cidade fotogénica por excelência. Terá sido esse quotidiano o objecto do seu interesse?
 
O quotidiano das pessoas e dos lugares é, sem dúvida, aquilo que mais me interessa. No caso de Nova Iorque o fascínio é imenso, mas o desafio é igualmente grande. A força que se sente nas ruas de Nova Iorque é de uma intensidade avassaladora. Misturam-se sentimentos como criatividade, paixão, agressividade, medo, raiva, loucura, numa dinâmica única, imparável. Captar essa força, através da objectiva, é o grande desafio. É um projecto em que trabalho há cerca de 4 anos, e a forma que encontrei para vencer a crescente resistência dos nova-iorquinos a serem fotografados foi mergulhar totalmente na vida da cidade. Não é possível forçar as imagens, temos de estar disponíveis e esperar que as imagens e as personagens venham ter connosco. Frequentemente, em estadias de duas e três semanas, fotografava das 7 da manhã, às vezes 6, até à meia-noite, uma, duas da manhã, sempre sozinho. Fiz três sessões em que fotografei a noite inteira. 
                                
 
                                            Me and Eva at «Rego d' Água» - foto de Rodrigo Amado
                                                                                
- Nesta sua exposição Close | Closer, há em determinadas fotografias – como por exemplo em duas das que ilustram esta conversa: Me and Eva at «Rego d’ Água» e Luís and Crista Looking In – uma claro pendor para a encenação. [Nota: Não veja nesta expressão «encenação» qualquer sentido pejorativo. Julgo, aliás, que o simples facto de se apontar uma câmara e escolher um determinado enquadramento, é já um primeiro gesto de encenação]. Mas… continuando… é este um pendor natural na sua forma de fotografar?
                                                                                        
Não. Tenho grande admiração e respeito pelo trabalho de fotógrafos que o fazem assumidamente, como é o caso de Philip-Lorca diCorcia, embora nem sempre essa encenação seja visível. No meu caso, procuro seguir um método mais próximo daquele que utilizo na música. Fotografo de uma forma totalmente intuitiva. Sem planear nunca aquilo que vou fazer. No auto-retrato que captei com a Eva, estava a fotografá-la a trabalhar há mais de uma hora e ela, já desesperada, pousou a cabeça na mesa como que a dizer: «já estou cansada». Foi nessa altura que captei a imagem. No retrato do Luís e da Cristina, ia a passar junto à janela da cozinha e chamou-me a atenção a luz que entrava pela janela. Eles estavam lá fora. Chamei-os e pedi que olhassem pela janela.
 
                                                     
 
                                                     Luís and Crista Looking In - foto de Rodrigo Amado 
 
- E a própria presença de dois quadros em duas paredes (um em primeiro plano e outro em segundo plano) na composição da foto Me and Eva at «Rego d’ Água»? [Ver acima] Considera-os um elemento de encenação, no sentido em que estou a utilizar esta palavra?
 
Nesse caso, a presença dos dois quadros foi deliberadamente incluída na composição do plano fixo – quando se fotografa com tripé, como foi o caso, a escolha do enquadramento é habitualmente mais cuidada do que quando se empunha a máquina. Quando olho agora para a foto, os quadros, um do meu pai (muito antigo) e outro do pintor Raul Perez, são dos elementos mais fortes da imagem.
                                                                                                         
 
                                                                  Auto-retrato  -  foto de Rodrigo Amado
                                                                                                              
 
- Finalmente: muitos consideram a fotografia a preto e branco como a verdadeira arte fotográfica. Independentemente de esta sua primeira exposição ser inteiramente a cores, partilha também daquela opinião?
 
Não. Para mim, a verdadeira arte fotográfica está na arte, não na técnica ou suporte fotográfico. A analogia pode ser feita com os vários estilos ou linguagens existentes no jazz. Também há quem diga que o verdadeiro jazz tem de ter swing...
 
- …é que visitei a sua página pessoal na Net e vi, por exemplo, algumas excelentes fotos a preto e branco de um concerto dos 4 Corners (julgo que é este o grupo no qual está o Vandermark). Tirou-as directamente a P&B ou utilizou a conversão para P&B através de um software?
 
O processamento que faço das fotos é, habitualmente, mínimo. Nesse caso, as fotografias foram tiradas a preto e branco. Apesar de ter um bom domínio das técnicas do Photoshop, procuro sempre não alterar muito as fotografias, penso que lhes retira naturalidade. Equilibro apenas os níveis, o contraste e o sharpness, e faço uma afinação cuidadosa das cores, retirando algum excesso de magenta, amarelo ou cian, conforme os casos. Nas 17 fotos presentes na exposição, apenas duas sofreram um (ligeiro) reenquadramento.
 
- Voltando, precisamente, ao problema das cores: vendo a sua exposição (a impressão das fotos está, de resto, muitíssimo boa) percebe-se que a afinação das cores não poderia ter deixado de contar com o apoio de software
 
…sim, como referi na resposta anterior, a afinação das cores é para mim crucial. Mas penso que deve ser apenas um fine tuning e não a criação de um equilíbrio totalmente diferente. A versão CS3 do Photoshop é muito poderosa e pode funcionar como uma armadilha, dando a sensação de que tudo é possível de fazer. Para a impressão desta exposição foi determinante o trabalho com um monitor bem calibrado, a qualidade das máquinas profissionais da Epson, e a ajuda preciosa do Mário Bau.
 
- Sendo certo que estes programas de software são como que as «câmaras escuras» dos nossos dias, não pertence, apesar de tudo, ao campo dos idealistas que consideram a utilização de software um pecado?
 
Como em tudo na vida, deve haver um equilíbrio e devemos privilegiar a verdade e a simplicidade.                                                                                                                                                  

 

(1)  - Close | Closer

       Exposição de Rodrigo Amado

       13 de Dezembro / 26 de Janeiro

       Galeria Kameraphoto

       R. da Vinha, 43A

       1200-475 Lisboa (ao Bairro Alto)

                                                                          

Nota de MJV - como quase sempre acontece na Internet, a compressão (não controlável) a que são sujeitas as fotos para publicação online pode ser de tal maneira radical que existe o risco de degradar a qualidade dos originais. Foi o que aconteceu (e se lamenta) com as quatro fotos pertencentes à exposição de Rodrigo Amado, que deve ser visitada para se ter uma ideia mais correcta da grande qualidade das fotos expostas.


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:10
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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Orrin Keepnews: um grande produtor do jazz

Orrin Keepnews e Cannonball Adderley

 

Fonte inesgotável de informação, a Internet vem sendo cada vez mais, também no campo do jazz, um veículo por excelência para melhor conhecermos alguns dos maiores criadores neste domínio musical ou para acompanharmos o surgimento de novos valores. Por exemplo, em termos de oferta de vídeos –  pesem embora graves problemas que se levantam quanto a abusos relacionados com o desrespeito pelos direitos de autores  – o surgimento de iniciativas como o YouTube permite-nos visionar pequenos videoclips ou mesmo sessões de maior duração com grandes músicos e até séries e documentários dedicados a tal ou tal personalidade do mundo do jazz.
 
Um dos gurus desta área da divulgação do jazz na Net é, sem dúvida, o jornalista e produtor Bret Primack com cerca de duas centenas de vídeos realizados e já vistos por mais de dois milhões de visitantes. Uma simples visita ao seu site Bird Lives (e a exploração dos seus preciosos links e recursos) permite-nos ficar com uma pálida ideia dos vídeos que Primack produziu até hoje, muitos deles de visão (e audição) indispensável.                                                                                             
 
Entre estes está, por exemplo, a série iniciada há 15 dias e da qual hoje mesmo foi publicado o segundo episódio sobre Sonny Rollins (visionar no fim deste post). Intitula-se Orrin Keepnews, Producer e é um conjunto de podcasts cujo foco principal é a trajectória deste célebre produtor discográfico que esteve na origem de tantas obras discográficas essenciais. Encomendados pelo Concord Music Group –  a propósito do lançamento da sua notável colecção de reedições Keepnews Collection, já aqui presente em O Sítio do Jazz na rubrica Discos em Destaque  – este conjunto de podcasts (com cerca de 10 minutos cada) dá-nos uma ideia das relações de Keepnews com os vários músicos que produziu.
                                                                                      
                                                                                                                                   A série prolongar-se-á, para já, até Agosto do próximo ano e iniciou-se com este vídeo sobre Thelonius Monk e um dos melhores volumes destas reedições: Thelonius Monk Plays Duke Ellington.
 
 
                                                                                                                                                                  
Seguir-se-ão nos próximos episódios:
 
Dezembro 17: Sonny Rollins – The Sound of Sonny   (ver vídeo no final do post)
Dezembro 31: Clark Terry – Serenade to a Bus Seat
Janeiro 14:  The Incredible Jazz Guitar of Wes Montgomery
Janeiro 28: Cannonball Adderley Quintet in San Francisco
Fevereiro 11: George Russell - Ezzethics
Fevereiro 25:  Bill Evans – Portrait in Jazz
Março 10: McCoy Tyner -- Horizon
Março 24: Cannonball Adderley Sextet in New York
Abril 7: Thelonious Monk -- Brilliant Corners (1ª. Parte)
Abril 21: Thelonious Monk – Brilliant Corners (2ª. Parte)
Maio 5:  Coleman Hawkins – The Hawk Flies
Maio 19:  Nat Adderley – Work Song
Maio 22: Sonny Rollins – Freedom Suite (1ª. Parte)
Junho 9:  Sonny Rollins – Freedom Suite (2ª. Parte)
Junho 23:  McCoy Tyner – Fly with the Wind
Julho 7:  Bill Evans – Sunday at the Village Vanguard
Julho 21: Thelonious Monk – Town Hall Concert (1ª. Parte)
Agosto 4: Thelonious Monk – Town Hall Concert (2ª. Parte)
Agosto 18: Blue Mitchell – Blue Soul

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 11:53
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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Ante-estreia (3) - André Fernandes

 

 

 Fotos Hot Clube: Manuel Jorge Veloso

 

A evolução tranquila de um talentoso guitarrista

  

Cubo

(Tone of a Pitch / Dargil)

1. Belzebu in in the Building; 2. Sal; 3. Not The Vibe; 4. Perto; 5. Dog Speak; 6. Vizz;   7. Trinta Dias; 8. Foi-se Embora

 

Quarteto de André Fernandes

André Fernandes (guitarra); Mário Laginha (piano); Nelson Cascais(contrabaixo); Alexandre Frazão (bateria)

 

Gravação: MB Studios (Vila Nova de Gaia) em

6 e 7 de Agosto 2007

 

 

Uma das últimas crónicas que, neste derradeiro ano de colaboração, ainda escrevi para o Diário de Notícias (1) teve como objecto uma apreciação crítica ao Festival de Jazz de Matosinhos, que acabara de se realizar, e que em dois dos seus concertos –  por coincidência preenchidos com músicos portugueses: a Orquestra de Jazz de Matosinhos e o sexteto de Mário Franco   – nos permitira ouvir como solistas convidados, respectivamente, Mark Turner e David Binney, dois dos mais originais e criativos saxofonistas do novo jazz norte-americano.
 
Escrevia eu, então, que se «a improvisação desenvolvida sob o clássico princípio tema-variações tinha ainda como dispositivo melódico essencial o jogo à volta dos acordes (e respectivas cifras) em que os temas se baseavam, já o tipo de improvisação que Mark Turner e David Binney hoje nos propõem é radicalmente diferente e gerador de uma muito mais intensa e ampla liberdade.»
 
E acrescentava: «agora, de uma forma interiorizada e pensada em alto grau, aquilo que nos é proposto, como complexo método de variação, é o apoio sempre transformável passo a passo (consoante a coincidência ou divergência vertical dos eventos melódicos e harmónicos) sobre escalas ou fragmentos de escalas que podem partir de notas fundamentais que compõem os acordes de base ou de notas que integram acordes “de passagem”, pelo que se tornam múltiplas e surpreendentes as direcções, desvios e atalhos de tais variações.»
                                                                   
 
 
É minha firme convicção que o guitarrista português André Fernandes se insere, também, no número destes músicos que trilham os novos caminhos do jazz actual e que entendem os princípios da improvisação de uma forma muito próxima da que procurei ensaiar naquela crónica e, por tabela, os princípios de composição das peças que constituem o ponto de partida para essas improvisações.
 
Vem isto a propósito do novo álbum Cubo gravado pelo jovem guitarrista –  cujo lançamento se realiza amanhã (terça-feira, 11) no Hot Clube de Portugal e que, por estes dias, chegou ou está a chegar às lojas   – dando-nos a ouvir o novo quarteto de André Fernandes.
 
Embora, numa primeira audição superficial, pudesse pensar-se que Cubo integra uma das várias linhas estéticas caras a Fernandes, ou seja, um ambiente que invoca ou se aproxima de certas correntes da música popular urbana –  e algumas passagens de Not The Vibe ou Trinta Dias ajudam a que essa ideia faça caminho  –, o certo é que, bem ouvidas as coisas, este novo álbum é mesmo um caso sério e deve, a meu ver, ser entendido como um desenvolvimento, pensado e aprofundado, da já muito interessante discografia do nosso talentoso guitarrista.
 
Para perceber como, também em música, as aparências iludem –  uma ideia que, nos últimos tempos, tem passado com alguma insistência por este blog  – é preciso ouvir atentamente Sal, uma peça central em todo o disco, e averiguar como as três secções que a compõem se conjugam para um resultado final de grande coerência e invenção.
 
Começando por uma série de arpejos que Mário Laginha nos deixa ouvir no piano e cuja permanente movimentação harmónica é altamente inspiradora, a guitarra e as vocalizações do próprio André Fernandes propõem-nos um tema calmo e cativante. Mas o modalismo que caracteriza a segunda secção iniciada aos 1m48s representa uma viragem bem inesperada, que transforma a sofisticação da primeira secção num desenvolvimento temático e rítmico mais «rude» e agitado. Aqui, a nota pedal que insistentemente Nelson Cascais produz no baixo-eléctrico é um elemento fundamental para o surgimento de vários acontecimentos musicais que interagem ou contrastam entre si.
 
Se, por um lado, os modos sobre os quais Fernandes deixa deslizar a sua fértil imaginação improvisativa vão mudando –  um pouco ao sabor (parece sentir-se) de uma vontade colectiva   –, a verdade é que aquela obsessiva nota pedal sublinhada por Cascais no baixo (mesmo mantendo-se no essencial inalterável) vai adquirindo uma função objectiva e subjectiva de carácter muito diverso; e os acordes esparsos e cristalinos que Laginha em tal ou tal momento deixa cair sobre tudo isto constituem, ainda, um ulterior e contrastante degrau auditivo.
 
Nesta catadupa de viragens e desvios, a terceira secção de Sal (surgida, à passagem dos 7m, de uma forma quase sub-reptícia) vem como que imprimir um radioso carácter português a esta interessantíssima peça e transmitir, pelas constantes deambulações harmónicas, um novo fôlego ao fantástico solo absoluto de Mário Laginha, imparável no crescendo gradual gerado a partir da região grave do instrumento. Até que, por volta dos 11m25s, uma última secção recapitula –  no fundo, constituindo o seu digest   – as ideias temáticas que ouvíramos na primeira secção, como se de uma revisão da matéria dada se tratasse.
 
Parecendo-me ser esta a peça-chave deste novo álbum de André Fernandes, outros momentos do disco, mais ou menos incisivos mas sempre brilhantes, vêm somar-se à generosa musicalidade de que o disco dá provas. Entre eles, a delicadeza da guitarra acústica no acompanhamento de Fernandes ao tema de Perto (enunciado «com um dedo» por Laginha) bem como a lógica interna do solo que inventa para a mesma peça, contrastam com as «curvas apertadas» e as métricas irregulares que moldam os temas complexos de Not The Vibe ou Dog Speak.
 
Já a admirável simplicidade do início em «pezinhos de lã», com Belzebu in the Building, tem imediata correspondência na forma pela qual o disco encerra, assim como quem não quer a coisa… com Foi-se Embora, uma canção que desliza num tempo mesmo pachola e composta (e cantada) por uma voz singular, a do desconcertante Tiago Maia (!).
 

Extremamente bem gravado e com notável mistura de Pete Rende, Cubo é, mais uma vez, para além da inventiva e empolgante participação de Mário Laginha, um veículo de afirmação (e criação) de outros dois indispensáveis talentos: os de Nelson Cascais e Alexandre Frazão, ambos dando largas ao seu tempo simultaneamente firme, impetuoso, sensível e delicado, em peças tão diferentes como Not The Vibe, Sal, Dog Speak ou Trinta Dias.

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(1) A Modernidade passou por Matosinhos (in DN, 25.04.07)

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Actualização (12.12.07): Incluídas duas fotos do lançamento no HCP


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 19:22
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